quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Em série de ataques contra Paris, casa de shows tem dezenas de mortes

Mulher é socorrida após tiroteio perto do Bataclan, conhecida sala de espetáculos de Paris, na França (Foto: Christian Hartmann/Reuters)Mulher é socorrida após tiroteio perto do Bataclan, conhecida sala de espetáculos de Paris, na França (Foto: Christian Hartmann/Reuters)
Terroristas morreram durante a invasão da polícia à casa de shows Bataclan, em Paris, onde mais de 100 pessoas foram mantidas reféns e dezenas foram mortas.
Segundo o Ministério francês do Interior, ao menos 120  pessoas foram mortas numa série de ataques da noite de sexta (13), sendo 70 no Bataclan. É o pior ataque à França na história recente.
O chefe de polícia de Paris, Michel Cadot, afirmou que, quando a polícia invadiu o local, quatro terroristas se suicidaram, detonando explosivos que três deles tinham em seus cintos. Ele afirmou ainda, segundo o jornal britânico "The Guardian", que antes de entrar no local os homens dispararam tiros de metralhadoras em cafés que ficam do lado de fora do Bataclan.
A emissora de TV BFM e o jornal Liberation, que cita o procurador de Paris, François Molins, dizem que cinco terroristas foram "neutralizados" no total. Agências internacionais de notícias, no entanto, informam que 8 terrositas morreram, dos quais 7 se suicidaram.
Também foram registrados tiroteios em outros pontos da cidade e explosões perto do Stade de France, durante um amistoso entre as seleções da França e Alemanha.
O jornal “Le Monde” diz que uma fonte judicial especificou onde aconteceram as mortes desta sexta, em um balanço provisório: uma pessoa morreu no boulevard Voltaire; 19 morreram e 14 ficaram feridas em frente ao bar La Belle Equipe, na Rue de Charonne; 78 ou 79 pessoas morreram no Bataclan (entre elas três ou quatro terroristas); cinco pessoas morreram e oito ficaram feridas na Rue de la Fontaine au Roi; de 12 a 14 morreram e dez ficaram feridas no bar Carillon, na Rue Allibert; e dois homens morreram nas explosões próximas ao Stade de France, ambos suicidas que provocaram as detonações.
A polícia invadiu o Bataclan às 21h40 (horário de Brasília), após relatos de que pessoas estariam sendo executadas. Dois terroristas foram mortos na ação. Dez minutos antes da invasão, a Reuters afirmava que foram ouvidas cinco explosões perto do local.
Por volta da 1h30 (22h30, em Brasília), o presidente francês François Hollande chegou ao local, onde permaneceu por cerca de meia hora. “Há muitos feridos, feridos graves, feridos chocados com o que viram”, disse o presidente, ao justificar porque quis ir ao local. “Quando os terroristas estão dispostos a cometer tais atrocidades, eles devem saber que irão encarar uma França determinada”, acrescentou. “Iremos conduzir a luta (contra os terroristas), e ela será implacável”, garantiu.
A casa fica no boulevard Voltaire, no 11º arrondissement, tem capacidade para 1.500 pessoas e era palco de um show da banda Eagles of the Death Metal.
A banda, que na hora do início do ataque terminava o show no palco do Bataclan, escapou do palco pelos bastidores e está a salvo, segundo afirmou o irmão de um dos membros, Michael Dorio. O irmão dele, Julian Dorio, é o baterista do grupo. Em entrevista à CNN, Michael disse que os músicos chegaram a ver os atiradores, mas encerraram o show quando notaram o ataque e fugiram. “Quando eles ouviram os tiros eles apenas correram para o backstage. Ele me disse que viu os atiradores, mas não ficou por ali”, explicou Dorio.
Homem é socorrido após tiroteio perto do Bataclan, conhecida sala de espetáculos de Paris, na França (Foto: Christian Hartmann/Reuters)Homem é socorrido após tiroteio perto do Bataclan, conhecida sala de espetáculos de Paris, na França (Foto: Christian Hartmann/Reuters)
O jornal também citou o relato de um jornalista da "Europe1", que estava no interior do Bataclan nesta noite: "Vários indivíduos armados entraram no meio do show", afirmou. "Dois ou três indivíduos não mascarados entraram com armas automáticas do tipo kalachnikov e começaram a atirar no público". O jornalista disse, ainda, que a ação durou de 10 a 15 minutos e que os atiradores eram jovens.
4 VALE ESTE - Ataques terroristas em Paris deixam mortos; houve explosões e há reféns (Foto: Arte/G1)
Um usuário do Facebook postou que estava dentro da casa de shows Bataclan. “Feridos graves! Estão atacando mais rápido. Há sobreviventes no interior. Eles estão assassinando todo mundo. Um por um. No primeiro andar, rápido!”, escreveu Benjamin Cazenoves. Em seguida ele postou que há "cadáveres por todo lado". "É um massacre".
O repórter Julien Pearce estava no Bataclan como espectador do show. Em entrevista à CNN, ele contou como conseguiu escapar da casa de shows. Segundo ele, no momento em que os terroristas
começaram a atirar no público, ele teve a ideia de se fingir de morto. "Falei para as pessoas deitarem e se passarem por mortos. Nós esperamos até que eles recarregassem as armas, então corremos e achamos uma pequena sala onde nos escondemos", explicou ele.
Pearce não explicou quantas pessoas estavam com ele nessa sala, mas disse que ela não dava passagem para fora do edifício, então o grupo esperou dentro da sala até que os atiradores esvaziassem novamente as armas.
"Então esperamos cerca de cinco segundos. Eles começaram a atirar, e depois nós corremos de novo. Foi então que eu vi o corpo de uma mulher, ela tinha levado dois tiros. Eu a levantei e nós corremos juntos", contou a testemunha. Já na rua, Pearce conseguiu parar um táxi e foi com a mulher até o hospital. "Não sei se ela sobreviveu, ela estava sangrando muito."
Segundo o repórter, a segurança na entrada do show não era rígida. “Eu entreguei o ingresso e entrei. Ninguém me revistou. A segurança era muito pobre”, disse ele.
Ao jornal "Le Figaro", uma testemunha contou que viu dois homens armados entrarem no Bataclan. "Eles estavam armados, vestidos normalmente: eles atiraram no exterior e no interior da sala", afirmou a testemunha.
Uma testemunha do ataque disse à rádio France Info que os atiradores dispararam contra o público gritando “Alá Akbar” (“Alá é grande”). “Eu e minha mãe conseguimos fugir do Batacla (...), evitamos os disparos, havia muita gente por todas as partes no solo”, disse o jovem chamado Louis. “Uns indivíduos chegaram, começaram a disparar na entrada. Dispararam contra a multidão gritando ‘Alá Akbar’, acho que com espingardas”.
Corpos de mortos em ataque a tiros no restaurante La Belle Equipe são vistos entre mesas, com sangue na calçada em frente ao estabelecimento em Paris (Foto: Anne Sophie Chaisemartin via AP)Corpos de mortos em ataque a tiros no restaurante La Belle Equipe são vistos entre mesas, com sangue na calçada em frente ao estabelecimento em Paris (Foto: Anne Sophie Chaisemartin via AP)
Restaurante
Charlotte Brehaut é uma britânica que  saiu para jantar com um amigo perto da casa em mora, em Paris. “Estava com um amigo e sentamos bem na janela de onde os tiros vieram, e eles não atingiram nenhum de nós”, explicou ela à CNN. Charlotte estima que cerca de 40 pessoas estavam no local.
“Fui jantar com meu amigo, de repente ouvimos um monte de tiros, e muitos cacos de vidro vindo da janela, então nos jogamos no chão com os outros clientes. Então ouvimos mais tiros, e muitos pedaços afiados de viro atingiam as pessoas no chão”, contou ela, que estima que o ataque durou entre dois ou três minutos, “mas pareceu muito mais longo”.
Charlotte diz que acredita ter visto pessoalmente entre três ou quatro pessoas com “feridas fatais”. “Eu estava segurando a mão de uma mulher. Quando comecei a perguntar para as pessoas se elas estavam bem, foi então que percebi que ela tinha sido ferida fatalmente. Ela foi atingida no peito”, disse ela. A jovem não sabe dizer se a mulher estava ou não viva, por causa do choque e da confusão. “Estava segurando a mão dela, alguém me perguntou se ela estava respirando, e eu olhei para ela e vi uma poça de sangue do lado dela. Eu achei que ela talvez estivesse consciente, mas as pessoas estavam em choque, então não sei.”
Estado de emergência
O presidente francês, François Hollande, afirmou em declaração em rede nacional que está declarado estado de emergência em toda a França e que os controles nas fronteiras serão reforçados. A presidência também anunciou que 1.500 soldados serão enviados a Paris.

O vice-prefeito de Paris, Patrick Krugman, afirmou que vários ataques aconteceram ao mesmo tempo. Ele disse que houve "entre seis e sete locais de ataques no centro de Paris e fora.

EM RESUMO
- Explosões próximo ao Stade de France, em Paris, durante jogo entre as seleções da França e Paris

- Pelo menos três tiroteios aconteceram em outros pontos da cidade

- A prefeitura parisiense afirmaram que há 112 mortos, sendo 70 deles na casa de espetáculos Bataclan. A polícia fala que há dezenas de feridos em outros pontos da cidade

- Obama se pronunciou a favor da França dizendo que os EUA estão prontos para ajudar a França a "responder" ao ocorrido

- O presidente da França, François Hollande, declarou em rede nacional que o país vai declarar estado de emergência e que os controles nas fronteiras serão reforçados.
- Cinco linhas de metrô de Paris foram fechadas

- Segundo a assessoria do Itamaraty, há dois brasileiros feridos nos atentados

- Polícia francesa invadiu a sala de concertos do Bataclan e mata terroristas

- O vice-prefeito de Paris afirmou que houve "entre seis e sete locais de ataques no centro de Paris e fora"

Alerta
A polícia emitiu um alerta, pedindo que os parisienses não deixem suas casas, "a não ser em caso de absoluta necessidade". Lugares públicos devem reforçar a segurança nas entradas e acolher aqueles que estiverem em necessidade. A polícia também ordenou que se interrompam as manifestações e eventos em áreas externas.
Em Paris, os hospitais entraram em "Plano Branco", um estado de emergência e crise, segundo o "Le Monde". Cinco linhas de metrô tiveram seus serviços interrompidos.
Segundo a BBC, um homem usando uma arma automática abriu fogo no restaurante Petit Cambodge no 10º arrondissement, deixando ao menos sete feridos. A Reuters afirma que duas pessoas morreram ali.
O presidente da França, François Hollande, fala sobre os ataques simultâneos em Paris (Foto: Reprodução/Reuters)O presidente da França, François Hollande, fala sobre os ataques simultâneos em Paris (Foto: Reprodução/Reuters)
Um repórter do "Liberation" que estava no local disse ter visto ao menos quatro corpos no chão. Já o repórter da BBC contou dez pessoas deitadas, sem conseguir identificar se estariam mortas ou feridas. Diversas ambulâncias já chegaram.
Um segundo tiroteio teve como cenário o bar "Le Carillon", segundo o Liberation. Na sequência, outro tiroteio foi registrado no 11º arrondissement.
Explosões no estádio
A BBC, o Liberation e o "Le Monde" afirmam também que houve três explosões do lado de fora do Stade de France. O presidente francês, François Hollande, foi retirado do estádio por segurança levado à sede do Ministério do Interior, onde acompanha o caso. A agência France Presse diz que ao menos uma das explosões foi um ataque suicida.
Após o final do jogo, o público começou a ser liberado lentamente.
O presidente americano Barack Obama fez um pronunciamento em que disse que a situação é “ultrajante” e que os EUA farão o que for possível para ajudar a França. “Faremos o que for necessário pra trabalhar com os franceses e as nações ao redor do mundo para buscar justiça”, disse. “Não quero especular no momento quem é o responsável até que sejamos informados pelas autoridades francesas que a situação está sob controle”.
Obama disse ainda que o que aconteceu foi "um ataque contra toda a humanidade".
"Aqueles que acham que podem aterrorizar o povo da França e os valores que eles representam estão errados", afirmou Obama, dizendo que os EUA estão prontos para ajudar a França a "responder" ao ocorrido.
O primeiro-ministro britânico, David Cameron, escreveu em seu Twitter uma mensagem em que diz: "Estou chocado pelos eventos em Paris nesta noite. Nossos pensamentos e orações estão com os franceses. Faremos o que for possível para ajudar".
Segundo a Reuters, oficiais de segurança dos EUA acreditam que os ataques de Paris sejam coordenados. Já o vice-prefeito de Paris afirmou que ainda é cedo para saber se os ataques foram coordenados, mas que isso não pode ser descartado.

Rita Katz, diretora do SITE Intelligence Group, grupo de monitoramento do terrorismo, postou em seu perfil no Twitter que há especulações de que o Estado Islâmico esteja por trás dos ataques em Paris devido ao envolvimento da França em bombardeios contra o grupo na Síria.

Por enquanto, nenhum grupo assumiu a autoria dos ataques.

Katz citou duas mensagens que teriam sido divulgadas em “canais do Estado Islâmico”. Uma delas diz: “Lembrem-se, lembrem-se do dia 14 de novembro #Paris. Eles nunca vão esquecer esse dia, assim como o 11 de Setembro para os americanos”.

A outra afirma: “A França envia suas aeronaves com bombas para a Síria diariamente e mata crianças e idosos, hoje está bebendo do próprio veneno”.

Katz disse ainda que adeptos do Estado Islâmico estão celebrando os ataques na França e ameaçam: “Esse é apenas o começo. Esperem até os istishhadis (suicidas) chegarem em seus carros”. Ela citou também outra mensagem em canais do Estado Islâmico: “França: à medida que você mata você está sendo morta”; “Nós estamos chegando, França”.
Ameaça
O hotel Molitor de Paris, onde está hospedada a seleção alemã de futebol, foi esvaziado ao final da manhã desta sexta devido a um alerta de bomba. Os jogadores alemães foram levados para outro hotel. Uma equipe especializada em explosivos esteve no local.
Equipe de resgate carrega um ferido perto da casa de espetáculos Bataclan, em Paris (Foto: Christian Hartmann/Reuters)Equipe de resgate carrega um ferido perto da casa de espetáculos Bataclan, em Paris (Foto: Christian Hartmann/Reuters)
Público no campo do Stade de France após a série de ataques (Foto: Michel Euler/AP)Público no campo do Stade de France após a série de ataques (Foto: Michel Euler/AP)
Policiais orientam as pessoas em frente ao Stade de France após ataque (Foto: Michel Euler/AP)Policiais orientam as pessoas em frente ao Stade de France após ataque (Foto: Michel Euler/AP)
Corpos de vítimas de tiroteio foram cobertos na calçada em frente a um restaurante de Paris, na França (Foto: Philippe Wojazer/Reuters)Corpos de vítimas de tiroteio foram cobertos na calçada em frente a um restaurante de Paris, na França (Foto: Philippe Wojazer/Reuters)

Na tarde do dia 5 de novembro, o rompimento da chamada Barragem do Fundão, em Mariana (MG), colocou em curso um dos maiores desastres socioambientais já vistos no Brasi






















Direto de Mariana: o difícil recomeço de quem teve a vida soterrada Reportagem dá início à jornada de Zero Hora ao longo do curso do Rio Doce, percorrendo o rastro de devastação deixado por rejeitos de mineradora


Direto de Mariana: o difícil recomeço de quem teve a vida soterrada Bruno Alencastro/Agencia RBS
Para sobreviventes da tragédia, povoado de Bento Rodrigues acabou: "Não existe mais e nunca mais vai existir" Foto: Bruno Alencastro / Agencia RBS
Por volta das 16h do dia 5 de novembro, quando a Barragem do Fundão começou a cuspir lama, o aposentado José do Nascimento de Jesus tinha casa, carro, uma pequena loja de artesanato e vestuário, um violão de estimação, fotos de família e tudo mais que acumulou ao longo de uma vida inteira.
Ao cabo de alguns segundos, viu-se apenas com uma bermuda, um par de chinelos e um telefone celular. Mais nada. Hoje, ao lado da mulher, Maria Irene de Deus, 76 anos, e de outras centenas de sobreviventes da enxurrada de lodo abrigados no município de Mariana (MG), junta forças para começar uma nova vida aos 70 anos.
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Inicialmente recolhida a um ginásio, agora a maior parte dos cerca de 800 ex-moradores de localidades atingidas em cheio pela tragédia, como Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, refugia-se em hotéis pagos pela mineradora Samarco. Esperam ser deslocados, nas próximas semanas, para casas alugadas na região.
O reinício, porém, é dificultado pelo nível de devastação imposto pela onda de rejeitos: os locais em que viviam, suas casas, seus antigos trabalhos não existem mais. Mais do que seus pertences, suas histórias de vida foram soterradas. Por isso, muitos custam a aceitar que o passado foi varrido para sempre.
— Quem sabe a nossa casinha esteja debaixo da lama. Vai ver que a lama passou por cima, e ela está lá embaixo. Pode ter sobrado alguma coisa... — sussurra Maria ao pé do ouvido de José, no corredor diante do quarto 25 do Hotel Providência, onde passaram a morar por tempo indeterminado.
— Deixa disso, mulher. Não sobrou nada. Nossa casa foi levada com tudo. Nada ficou no lugar. Bento Rodrigues não existe mais e nunca mais vai existir – responde ele.
Ao lado da mulher, Maria Irene, João Nascimento de Jesus (centro) toca músicas ao violão para disfarçar a tristeza pela destruição de "seu paraíso"
Foto: Bruno Alencastro / Agência RBS
Bento Rodrigues, o epicentro da tragédia, localizado a 23 quilômetros da sede municipal, é o nome oficial do que Jesus costumava chamar de "meu paraíso" — o pedaço de terra onde era conhecido por todos, tocava seu violão e esperava passar seus últimos anos em sossego. Foi expulso de lá pela onda gigantesca de rejeitos minerais que serpenteou morro abaixo até engolir o subdistrito de Mariana.
— Corremos e pegamos carona no último carro que deixou a baixada — conta o aposentado, que comprou um violão novo e disfarça a tristeza tocando músicas ao anoitecer.
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Cientistas articulam análises autônomas sobre o desastre de Mariana
A empresária Sandra Dometirdes Quintão, 43 anos, escapou com a filha Ana Amélia, dois anos. Ela vivia e trabalhava em um casarão histórico que serviu de refúgio a tropeiros, décadas atrás, foi moradia de seus pais e, até o começo do mês, funcionava como bar, restaurante e pequena pousada.
— Quando olhei para trás, vi o andar de cima rodopiar e afundar na lama. Não quero nunca mais voltar para Bento e ver como aquilo lá ficou, porque a saudade é grande demais — conta Sandra.
Graças à boa vontade da gerência do hotel, foi cedida uma cozinha para ela voltar a preparar coxinhas, pés-de-moleque e cocadas e, assim, recuperar uma fonte de renda. Mas a comerciante ainda nem faz planos de reabrir um bar em outro ponto da cidade. Como outras centenas de pessoas que tiveram a antiga rotina engolida pela lama, primeiro pensa em refazer documentos, encontrar um novo lugar para morar e, só então, voltar a viver de fato.
Sandra Dometirdes Quintão, que teve o bar destruído pela lama, conta com a boa vontade de um hotel para voltar a preparar coxinhas
Foto: Bruno Alencastro / Agência RBS
A vigília pelos desaparecidos
Todos os dias, Aline Ferreira Ribeiro, 33 anos, cumpre o mesmo ritual. Sai de casa e ruma para o centro de controle municipal, em Mariana (MG), onde se concentram as informações sobre as vítimas da Barragem do Fundão. Chega de manhã, por volta das 8h, e vai embora à noite sob a angústia de não saber onde foi parar o corpo do seu marido.
— Eu não tenho mais esperança. Só espero que encontrem o corpo para eu poder sepultar o Samuel. Não é justo uma pessoa trabalhar tanto tempo para ficar esquecida desse jeito — desabafa a viúva e mãe de quatro filhos.
Ela conta que um colega de serviço de Samuel Vieira Albino, que trabalhava na barragem, viu o momento em que a lama o engolfou. Quatro trabalhadores estavam no mesmo local e perceberam o tsunami de barro se aproximando. Correram para os lados e conseguiram sair do trajeto da lama. Albino, porém, tentou escapar em uma caminhonete. Uma primeira ondulação ergueu o veículo, e uma segunda, mais alta, o encobriu para não mais ser visto.
Aline Ferreira Ribeiro diz ter perdido as esperanças de encontrar o marido vivo
Foto: Bruno Alencastro / Agência RBS

Diariamente, enquanto aguarda notícias, Aline encontra-se com Ana Paula Alexandre, 40 anos. Ana Paula segue idêntica rotina de Aline pela mesma razão: descobrir o paradeiro do marido, o operador de escavadeira Odinaldo Oliveira de Assis, 40 anos, que também trabalhava na barragem. Passam praticamente o dia inteiro sentadas à espera da notícia que trará, ao mesmo tempo, dor e algum alívio.
— Depois de 11 dias, a esperança vai embora — desabafa Ana Paula.
Nos primeiros dias, a mulher imaginava que o marido pudesse estar refugiado em um ponto de difícil acesso na mata ou preso dentro da escavadeira. Agora, ela só quer descobrir para onde a enxurrada de lama levou Odinaldo para, então, tirá-lo debaixo do chão barroso.
Rota da Lama
Na tarde do dia 5 de novembro, o rompimento da chamada Barragem do Fundão, em Mariana (MG), colocou em curso um dos maiores desastres socioambientais já vistos no Brasil.
Os 62 milhões de metros cúbicos de lama despejados morro abaixo — suficientes para encher 25 mil piscinas olímpicas — começaram a percorrer um trajeto de mais de 500 quilômetros por vales e rios que deverá desaguar no mar do Espírito Santo.
Zero Hora percorre o rastro de devastação deixado por esse tsunami de rejeitos a fim de documentar alguns dos principais impactos ambientais e materiais na população provocados pela tragédia ao longo do curso do Rio Doce. A primeira parada foi no município de Mariana, onde a localidade de Bento Rodrigues registrou mortes, desaparecimentos e foi praticamente extinta pela força do mar barroso que contamina solos e rios, aniquila fauna, flora e compromete o abastecimento de água de cidades inteiras.